III DP – B (2012)
At 3,13-15. 17-19; Sl 4; 1Jo 2,1-5; Lc 24,35-48
1. Meus irmãos,
Durante a Semana Santa ouvimos a profecia do “Servo Sofredor” feita pelo profeta Isaías, 600 anos antes de Cristo, quando o Povo de Israel sofreu a deportação e o cativeiro na Babilônia. A profecia do “Servo Sofredor” também aparece em vários Salmos, assim, em forma de oração. Um deles é o Salmo 22 (21), com o dramático refrão “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonastes”? (v. 2) recitado no Domingo de Ramos.
2. Quem é o “Servo Sofredor”? O “Servo Sofredor” é personagem muito caracterizado que, de um lado, representa o Povo de Israel que sofre o exílio na Babilônia e, por outro, remete para o futuro, para um servo de Deus, que não teria pecado, que é inocente, que sofre para o pecado de toda humanidade, e que, por fim, por Deus será exaltado. Há, assim, um duplo movimento na profecia do “Servo Sofredor”, a humilhação e a exaltação: o Servo de Deus é humilhado e, depois, por Deus, será exaltado.
3. Foi da profecia do “Servo Sofredor” que Jesus entendeu a Sua missão e, tantas vezes, explicou a Sua missão, como nos anúncios de Sua morte e ressurreição (cf. Mc 8.31; 9,31; 10,33s; par.). Os Apóstolos, após verem a morte – a humilhação, e a ressurreição de Cristo – a sua exaltação, anunciaram a salvação realizada por Jesus Cristo também se servindo da profecia do “Servo Sofredor”, pelo mesmo Cristo cumprida. Assim, as três leituras da missa de hoje são, assim, exemplos da pregação apostólica que ao anunciar a Páscoa de Jesus, e suas exigências para a vida cristã, se serviram da profecia do “Servo Sofredor”.
4. As três leituras da missa de hoje retomam o tema do Servo Sofredor, aplicado a Jesus Cristo e à sua Páscoa. A 1ª leitura é parte de um dos discursos de S. Pedro transcritos no livro dos Atos dos Apóstolos. Notamos que os títulos aplicados por S. Pedro a Jesus referem-se ao “Servo Sofredor”: “servo” (v. 13), “Santo” (v. 14), “Justo” (v. 14). Notamos, também, o duplo movimento do “Servo Sofredor”, a sua humilhação e a sua exaltação: “Renegastes, porém, o Santo e o Justo, e reclamastes graça para um assassino (...) Deus o ressuscitou dos mortos” (vv. 14-15).
5. Na 2ª leitura, S. João também aplica a profecia do Servo Sofredor a N. S. Jesus Cristo. Ao referir-se a Ele, disse: “Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima expiatória pelos nossos pecados. E não somente pelos nossos, mas também pelos de todo mundo” (vv. 1-2). S. João, além de aplicar o titulo “Justo” a N. S. Jesus Cristo, que é um dos títulos do “Servo Sofredor” (cf. Is 53,11), ele O apresenta como a vítima de expiação dos pecados, dos crentes, e de toda a humanidade (cf. Is 53,4-8.11-12).
6. O presente trecho da I Carta de S. João tem um caráter moral, a partir de Jesus Cristo e de Sua Páscoa redentora: “Não pequeis, mas, se alguém pecar, temos (Jesus Cristo) como advogado junto do Pai” (v. 1) É Jesus o enviado do Pai para a salvação da humanidade e para o perdão dos pecados. Apesar do imperativo de “não pecar”, diante do pecado, temos os méritos de Cristo para o nosso perdão.
7. No mesmo trecho, S. João diz que quem guarda os mandamentos (v. 3), quem guarda a palavra de Deus (v. 5), nele o amor de Deus é perfeito. Isto significa que quem realmente vive em comunhão com Deus põe em prática a Sua Palavra, vive os seus mandamentos. Do contrario, quem não guarda os mandamentos é mentiroso, e a verdade de Deus (cf. 1Jo 4,20) não esta nele (v. 4). Portanto, Jesus é o enviado do Pai para a nossa salvação. Ele nos oferece o perdão dos pecados e nos convida a viver em comunhão com Deus, para que possamos viver segundo a Sua vontade. Em comunhão com Deus, se vive segundo a Sua vontade, segundo os Seus Mandamentos e, assim, se supra os pecados. Desta forma, Jesus Cristo, o Justo Servo de Deus, nos oferece o perdão dos pecados e, em comunhão com Ele, nos oferece uma vida nova, sem pecados, na construção do Seu Reino de Paz.
8. O Evangelho da missa de hoje nos apresenta outro relato da ressurreição de Cristo. Neste encontro de Jesus com Seus Apóstolos, Ele apareceu-lhes, e os saudou desejando-lhes a paz (v. 36), mostrou-lhes as mãos e os pés chagados (v. 39) para mostrar-lhes que Ele era “o mesmo” que fora crucificado, e que agora estava vivo, por causa da dificuldade que eles, os Apóstolos tinham em acreditar que Ele havia ressuscitado (vv. 37.38s.41). Apesar disso, Jesus tomou a refeição com os Apóstolos, e lhes disse: “São estas as coisas que vos falei quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos” (v. 44) e, em seguida: “Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia” (v. 46). Embora Jesus, neste encontro com os Apóstolos, tenha tratado de várias passagens da Escritura que profetizassem a Sua missão, nesta última frase, Ele faz uma referência ao “Servo Sofredor”, e ao duplo movimento desta profecia, a humilhação e a exaltação: “O Cristo sofrerá – a humilhação, e ressuscitará ao terceiro dia” – a exaltação. Este dialogo de Jesus com os Seus Apóstolos foi importante, inclusive, para manifesta que n’Ele se unem as profecias do Messias e as do “Servo Sofredor”, e que foi pelo sofrimento, pela morte, e pela ressurreição que Ele, Jesus, operou a salvação da humanidade. As profecias do “Servo Sofredor” falam que sobre ele repousa o Espírito Santo, portanto, é um ungido de Deus. Porém, os judeus contemporâneos a Jesus esperavam que o Messias libertasse o Povo de Israel do jugo dos romanos (cf. Lc 24,21). E neste dialogo, servindo-Se da Escritura, ou seja, das profecias contidas no Antigo Testamento, Jesus mostrou que as cumpriu em plenitude (v. 44; cf. Mt 5,17).
9. Em seguida, Jesus disse: “e no nome (de Cristo) serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sereis testemunhas de tudo isso” (vv. 47-48). Como em outros relatos de ressurreição, Jesus envia os Seus Apóstolos como Suas testemunhas. Após terem experimentado que Jesus é o Salvador, os Apóstolos devem testemunhá-Lo, a todas as nações. De fato, a mensagem e a missão de Jesus não deveriam ser restritas às pessoas que O conheceram nesta vida, mas deveriam ser anunciadas a todos os homens, de todos os tempos, ou seja, a todas as nações.
10. Meus irmãos, estamos a celebrar o Tempo Pascal, que tem por finalidade aprofundar o mistério da Páscoa de Jesus, da qual nos vem a nossa salvação. Jesus Cristo é o Justo Servo de Deus, o enviado do Pai, o Ungido, o Messias, que deu a vida para a nossa salvação – a humilhação, e que pelo Pai dos Céus ressuscitou – a exaltação. Que possamos ser as testemunhas da Páscoa de Jesus, que ora celebramos, como foram os Apóstolos, a anunciar, por palavras e atos, a salvação que Jesus Cristo nos oferece. Ele conta conosco, para que sejamos as Suas testemunhas, construtoras de Seu Reino de paz!
V. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
